Não se reconhece nenhum fenômeno senão pelos sinais que manifestam sua existência, concordando aqui com Sartre.
Como se manifesta esse deus? Descreva como se passa essa manifestação. Sintomas, sinais, índices.
Depois: como identificar tais ou quais sinais com uma divindade se eu não tenho um modelo de divindade? Compreende.
Quando vejo o chão das ruas alagados sei que choveu, mas só porque tenho antes um modelo de referência (conheço a manifestação da chuva) para identificar aqueles sinais, os filiando a ele.
Mas se deus se manifesta a cada um de um modo diferente, como saber se se trata da mesma coisa, isto é, do mesmo deus?
Não passa de uma suposição, concordas? Como em nenhuma manifestação a fonte foi encontrada, supomos se tratar então do mesma, porém, não passaria de uma hipótese, se, evidentemente, eliminada todos os modelos de fenômenos já constatados.
Não é apenas questão de ter ou não ter fé, para atravessar a rua precisamos constatar que não vem um carro. Não preparo um café apenas com fé (rsrs).
A fé é uma aposta que sem razão se tornou certeza.
Aposta de que no vazio que se vê houve e há alguma coisa determinada que se não vê.
O próprio Apóstolo Paulo a definiu segundo este conceito (em Coríntios se não me engano).
Alguns podem confiar nisso, desracionalizar e deixar-se conduzir. Porém, outros, como eu, não conseguem.
Ao ver um copo vazio não consigo crer que ali há uma dose de cerveja (rs).
E o que houve ali, se é que houve, pode ter sido qualquer coisa.
E para os que vivem ME dizendo que ele existe, apenas por achar isso...
Se parto de um pressuposto totalmente hipotético o curso de minha investigação especulativa não passará de hipótese, sua validade será apenas formal, não concreta.
As precondições metodológicas são da mesma ordem. Se minha premissa não é autoevidente precisa ser minimamente demonstrada, ainda que de modo estritamente formal.
Se tenho um objeto sem designação na minha premissa dialógica, esse objeto não será comunicado, o interlocutor não tem acesso ao código de sua conceituação, ele suporá qualquer coisa a respeito daquele nome. A designação implica remessa ao referente.
Se vamos falar sobre algo que não vemos precisamos identificar o objeto pelo conceito ou induzi-lo a partir da descrição teórica.
Sem isso vira deliração, um culto fetichista nominal.
O silogismo, que é afinal do que dizes quanto à lógica formal, implica em que a premissa tenha todos os seus elementos previamente reconhecidos pelo interlocutor.
Não adianta eu dizer que todo homem é mortal, que sócrates é mortal, logo sócrates é homem, se eu não souber o que é um mortal. Preciso antes conhecer a mortalidade para identificar sua assertividade com sócrates. Ainda assim isso não me diria muita coisa, que sócrates é Homem havendo outras espécies mortais. Por outro lado, se digo que sócrates é homem posso até concluir que por isso ele necessariamente é mortal, mas ainda não comprovo que ele realmente existe enquanto homem. Eu aceito que sócrates é Homem só porque você está dizendo. Agora conhecendo o que é o homem e quem é sócrates, por suas características ou conceito, posso identificar com seus correspondentes modelos. Dizer que o Homem é mortal e que sócrates é homem não me diz nem o que é o homem nem quem é sócrates.
Ou seja - dizer que Fulana é linda, não prova que Fulana existe, e nem que o linda existe. Apenas diz que: Se existir essa Fulana, ela é linda, e se existir o linda, o linda é como a Fulana poderia ser.
Tratar da existência é mais elementar do que caracterizar um existente. O reconhecimento do existente parte de uma relação direta de reconhecimento de suas manifestações.
Não se comunica nada sem o reconhecimento do elemento comum.
Dizer que deus é onipotente não prova que deus existe, e nem que o onipotente existe.
A definição de um ser - não prova a existência do mesmo.
Deixo claro que não tenho nada contra religiões, ou contra quem acredita, apenas não acho viável a idéia de alguem com uma varinha mágica la em cima fazendo o Homem e o Universo.
Hugs, M~
